A Doutrina da Floreta

A origem da doutrina remonta ao ano de 1930 com o seringueiro maranhense Raimundo Irineu Serra. Negro alto com 2 metros de altura, filho do ex-escravo Sancho Martino e Joana Assunção. Integrou a Comissão de Limites entidade do Governo Federal, que delimitava as fronteiras entre Acre, Bolívia e Peru, órgão esse, comandado pelo almirante Álvares  de Carvalho. E foi o próprio almirante, que nomeou Irineu o responsável pela custódia do cofre da expedição, cargo de estrita confiança do chefe da tropa. É bem possível que Irineu tenha tido oportunidade de conhecer como membro da comissão diversas áreas de fronteira do então território do Acre, incluindo a serra do Moa no alto Juruá, Tarauacá, Assis Brasil e Xapuri na divisa do Peru e da Bolívia. Nestas viagem pelo sertão pode ter tido algum conhecimento do uso da ayahuasca entre os índios e caboclos da região. O mais provável é que ele permaneceu de 1912 a 14 nos arredores de Xapuri , ano que foi para  Brasiléia, onde conheceu os irmãos Antonio e André Costa, com os quais se juntou para fundar o CRF-Círculo de Regeneração e Fé, possivelmente por volta de 1916, primeira entidade que se tem notícia que trabalhava com uma bebida psicoativa.

Existe também relatos de que o mestre teria se iniciado com um ayahuasqueiro de nome Pizango. Se isto aconteceu deve ter sido entre 1914 e 1916, pois em 1917 ele se casou com Emilia Rosa Amorim que veio a lhe dar seu único filho que sobreviveu, e nome Valcírio.

Conta a tradição que durante esta época que trabalhava com os irmãos Costa, quando se encontrava numa colocação de seringa, Irineu obteve uma revelação, uma visão de uma mulher, que se apresentou com o nome de Clara e que o orientou a fazer uma dieta na mata por oito dias, apenas comendo mandioca cozida sem sal, abster-se de álcool e sexo. Após a dieta, ao tomar novamente a bebida, a visão da mulher apareceu novamente. Apresentou-se como a Rainha da Floresta, que Mestre  Irineu compreendeu ser a própria Nossa Senhora da Conceição, a Padroeira da Doutrina Santo Daime. Aos poucos ela foi lhe passando as revelações e instruções que se constituíram na base da Doutrina do Daime que o mestre Irineu iria sistematizando no decorrer dos anos.

Não se sabe ao certo os motivos que o levaram a abandonar Brasiléia, a mulher,  filho e a companhia dos irmãos Costa e os trabalhos no CRF. Raimundo Irineu Serra chegou em Rio Branco no dia 2 de janeiro de 1920 e sentou praça na força policial daquela cidade. Segundo antigos depoimentos continuou preparando e fazendo uso da bebida, cujos componentes eram acessíveis nas cercanias de Rio Branco. Germano Guilherme, seu colega de tropa, a quem ele chamava de maninho, foi seu primeiro acompanhante nos estudos com a ayahuasca.

A partir daí seu trabalho foi crescendo. Em 1930 foi realizada a primeira sessão oficial  e no São João de 1935 o primeiro hinário com farda. Sua fama de curador se espalhou por toda a cidade. Era procurado por pessoas das mais diversas condições sociais, culturais. Foi filiado a diversas entidades espiritualistas como o Centro da Comunhão do Pensamento, e a Antiga Rosa Mística a Rosa Cruz.

Ele representa o tronco original da religião  ayahuasqueira que estabeleceu esta rica síntese entre o sacramento milenar da ayahuasca e a nova revelação de um Cristo surgido na floresta, dentro de um cipó, revelado por uma aparição de Nossa Senhora. Desta matriz surgiram outros seguimentos: Daniel Pereira de Matos, fundador da linha da Barquinha, Sebastião Mota de Melo, fundador da nossa igreja, Francisco Fernandes Filho, o Tetéu e muitos outros que deram continuidade ao rico processo de diversificação espiritual e cultural da ayahuasca em nosso país.

O Santo Daime hoje denomina o segmento criado por um dos seus discípulos, padrinho Sebastião Mota de Melo, seringueiro e construtor de canoas, fundador da ICEFLU. Coube a ele desenvolver o rico legado do Mestre Irineu, expandir a doutrina para além das nossas fronteiras e ampliar o ecletismo já presente na doutrina do mestre, ampliando o diálogo com outras tradições e incorporando influências espíritas, mediúnicas e orientalistas.

Com o falecimento do Padrinho Sebastião em janeiro de 1990, é sucedido pelo seu filho o Padrinho Alfredo Gregório de Melo.

Sebastião Mota de Melo, nasceu no Seringal Monte Lígia em 1920, e desde cedo demonstrou propensão para fazer viagens astrais e ter visões dos seres encantados da floresta. Começou sua carreira de curador e rezador nos ermos do Vale do Juruá. Desenvolveu-se mediunicamente na Doutrina Espírita através de seu compadre Oswaldo, que era kardecista. Mudou-se para Rio Branco com a família em 1957, onde levava uma vida de colono e atendia doentes do seu círculo de parentes, compadres e afilhados. Foi um homem simples, de sólida convicção espírita e trabalhador incansável.
Discípulo do Mestre Irineu, recebeu deste o dom de expandir o Culto do Santo Daime por todo o país e além de suas fronteiras. Em 1974 mandou registrar sua entidade religiosa e filantrópica, denominada Cefluris – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, sociedade sem fins lucrativos responsável pelo trabalho espiritual desenvolvido com a bebida sacramental denominada Santo Daime.
Em 1980 transferiu a comunidade, que vivia nos arredores de Rio Branco, para uma área virgem no interior da floresta, denominada Seringal Rio do Ouro. Em 1982 fundou o assentamento que hoje vem a ser a Vila Céu do Mapiá, onde foi um incansável trabalhador, tanto na parte espiritual como material. Gostava de trabalhar na construção de canoas e fazer grandes caminhadas pela floresta que tanto amava e conhecia. Nos seus últimos anos recebeu carinhosamente os afilhados que chegavam de todas as partes do mundo. Fez algumas viagens ao sul do país para conhecer as igrejas que tinham se formado em torno dos seus ensinamentos. Só nesse momento foi que conheceu o mar, o que muito o emocionou. Faleceu em 20 de janeiro de 1990 no Rio de janeiro, onde se encontrava para se tratar de uma grave doença cardíaca que o acometera há alguns anos.

Mestre Irineu

Sebastião Mota de Melo

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